sábado, 4 de julho de 2009

O que define uma obra de arte?

Há algum tempo venho ponderando a respeito do circuito de artes contemporâneo. Sobre como o grande público se aproxima e se apropria desse meio tão especializado. Como essa mesma população lida com tal 'exclusão'. Porém, e quanto mais ponderava a respeito mais eu me deparava com essa questão, era necessário delimitar o que é arte, ou melhor, o que se pode chamar ou não de “obra de arte”. Isso porque a cada momento que eu me propunha pensar essa relação entre o público e a 'obra de arte' e sua mediação por qualquer que seja a instituição, o que, cada vez mais, me parecia problemático era: O que torna essa obra uma “obra de arte”? Seria sua mera presença em uma instituição cultural? Seria o simples fato de ele ter sido feito/ pensado/ projetado por um “artista”? Onde se delimita essa tênue linha? Essa problematização decorria de uma demanda daquele público geral por eu notada: os visitantes não especializados tinham um problema de identificação com aquela obra, como se elas não lhes dissessem nada [sobre suas vidas, sua sociedade etc.] ainda que as aceitassem como tal apenas pela sua presença naquele espaço.

Assim preocupei-me em definir primeiramente o que delimitaria uma obra de arte como tal e a seguir o que a separaria de uma ocasional intervenção qualquer no espaço. Tentei me afastar, dar um passo atrás, para depois prosseguir com minhas outras ponderações. Responder essa pergunta aparentemente tão simples mostrou-se uma tarefa exaustiva uma vez que via de regra aceitamos o objeto artístico como tal simplesmente por ele nos ser assim apresentado. Após algumas discussões com professores e amigos por meses a fio e após intensa tentativa intrusa de inserção nesse meio especializado, penso, hoje, ter alcançado um ponto bastante interessante. Por fim, conclui: O objeto artístico é uma reflexão [que na arte contemporânea se apóia em qualquer suporte] social, econômica e, mesmo, pessoal[1] que se dá pela sensação [e reflexão] estética, ou seja, uma reflexão sobre esses valores, vigentes ou passados, se dá através da visualidade que fará, por livre associação ou não, relações com conceitos estéticos estabelecidos e pensados como tais pelo menos desde o século XIX.

Como citamos previamente a arte contemporânea tem esse viés de se apropriar de qualquer suporte para propor sua reflexão, assim não mais faz sentido falarmos de obra de arte mas sim de objetos artísticos, uma vez que a obra de arte, como seu próprio produtor, perde sua aura indelével de objeto inspirado ou inspirador subtraído de um gênio além de seu tempo para se tornar o “comum e rotineiro”[2].

Ponderado isso podemos agora mais facilmente entender um processo vital e recorrente na visitação a instituições culturais hoje e o distanciamento do público não especializado das discussões propostas: [via de regra] esse público visita uma exposição pretendendo deparar-se com o ideário moderno de obra de arte, o qual não exclui o que acabamos de pontuar nos parágrafos anteriores não obstante ainda se imbuídos do ideal do belo que precede ainda o ideal moderno. Mesmo que esse ‘belo’ seja diferente daquele anterior, em outras palavras, o belo nos movimentos modernistas é importante mesmo sendo esse belo criado a partir de diferentes referenciais do ‘renascentista’, por exemplo.

Entenda-se os artistas e o movimento artístico hoje não se considera apartado da sociedade em instancia nenhuma, porém essa mesma sociedade os considera como tal por ainda sustentarem um ideário romântico no qual, querendo ou não, os modernistas do século XIX se inseriram. Nesse confronto o público não especializado se frustra e se entende segregado de quaisquer discussões propostas, não que não existam ali discussões próprias e internas aos movimentos artísticos e, mesmo, ao suporte escolhido, certamente elas existirão, não obstante não é esse o elemento que o artista pretende que aproxime público de reflexão e sim o convívio social em seu amplo aspecto, significando aqui a aproximação de diferentes públicos com determinada obra a partir de elementos tangíveis e identificativos comuns a todos [público especializado e não-especializado] por pertencerem ao cotidiano citadino/ social/ contemporâneo.



[1]. Dado que somos indivíduos sociais ou, no mínimo, socializáveis o foro pessoal em muitas medidas reflete sociedade, economia, preceitos filosóficos, entre outros elementos compositores do individuo que reflete aquela obra.

[2]. Baudelaire fala-nos da perda da aura do artista e, mesmo sem saber, prevê a “queda”, a perda da aureola da obra também em seu [famoso] texto: “Perda da aureola”.

Perda da aureola In: BAUDELAIRE, C. Pequenos poemas em prosa. Editora da UFSC: Florianópolis, 1988.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Josef Albers - Homenagem ao quadrado

Quadrados flutuando em uma assimetria quase imperceptível dentro de outros quadrados de proporções variadas formando relações entre si a partir da cor seja pela proximidade cromática ou por seu distanciamento. Assim é a exposição COR E LUZ: HOMENAGEM AO QUADRADO de JOSEF ALBERS que se apresenta aos visitantes do Instituto Tomie Ohtake entre 16 de janeiro e 1º de março deste ano. Ao adentrar na exposição torna-se impossível pensar apenas no homenageado, o quadrado, dessa ultima série de pinturas feitas por Albers separado da construção e mesmo do discurso que se construirá não apenas pela forma, escolhida não ao acaso, mas também pela cor, sua variação ou sua sobreposição.
Não se pode negar que ali encontraremos um estudo de cores, um ótimo exemplo de construção do olhar muito alinhado ás teorias cromáticas postuladas por seu companheiro do corpo discente da BAUHAUS Wassily Kandinsky[1], porém Albers ao contrário deste não está preocupado em transpor para a tela uma paisagem puramente teórica, ou mesmo em construir paisagem alguma. Veremos na HOMENAGEM AO QUADRADO uma busca por um ponto essencial e, ao mesmo tempo, um deslocamento da apreensão do discurso artístico do cérebro para algo mais internalizado.
Preocupado sempre com a luz ideal o pintor propõe que vejamos essas obras à luz solar, o que nem sempre é possível por uma série de impossibilidades que perpassam desde a construção do espaço expositivo até a conservação das obras, ciente desses problemas o próprio Albers ao fazê-las as submetia a luminosidade incandescente e fria para compreender a relação da luminosidade com a cor apresentada. Por que fazê-lo? Pode-se pensar e a resposta virá exatamente das obras, o estudo de Josef Albers se constrói pela variação de cores prontas sobrepostas, ou melhor, entrepostas umas as outras as limitando a espaços quadrados. Essa variação levará o leitor a uma experimentação primaria cromática e secundária mais interiorizada, quase que metafísica para alguns.
A experiência cromática se constrói de maneira única uma vez que ela se dá pela relação entre a cor e a forma que a contém, Albers faz isso propositalmente para que, a partir do que ele nos apresenta possamos cada vez mais ver aquelas cores e estabelecer relações entre os quadrados. Notadamente Albers não cria cores ele aplica cores já existentes diretamente do tubo no suporte de madeira e espalha com uma faca ele fará isso diversas vezes passando mais vezes em determinados quadrados e menos em outros, criando texturas e alturas variáveis entre os quadrados mais internos e externos, não obstante ele não o fará seguindo uma lógica diferente da aleatoriedade e ainda sempre deixará vestígios do suporte utilizados a vista do leitor, o que gera um certo desconforto na primeira leitora.
É a partir desse desconforto que alcançamos essa parte mais interna da obra, é pensando em como foi feito aquilo que nota-se os contrastes sutis, as linhas quase perfeitas delimitando cada um dos quadrados, a presença de tons repetidos que antes pareciam muito diferentes entre si etc. e começa-se a criar mentalmente arestas que ligam aqueles quadrados formando cubos, ou pequenos cortes transversais inexistentes nas bordas de algumas obras limitando-as em molduras inexistentes ou pelo contrário nota-se a ausência dessas molduras “imaginária” e percebe-se a infinitude do que ali está exposto, o eterno crescimento daquele quadrado de madeira com quadrados de uma mesma cor pintados em si. Enfim Josef Albers constrói um sentido a partir das cores e da forma simples por ele escolhida para sua obra. Certamente um leitor mais ávido por relacionar a obra pode pensará imediatamente em Piet Mondrian[2] porém enquanto Mondrian procurava relacionar ou refletir um sentido e uma lógica universal a partir das cores primárias, Albers refletirá tanto uma metafísica mais ampla quanto em um nível mais individual: O brilho das cores, os pequeninos pontilhados que remetem ao suporte, a separação das camadas e a própria escolha do objeto retratado, uma forma tão simples, tudo isso deve ser lido e interiorizado pelo visitante para compreender-se um sentido maior ao qual a obra de Josef Albers remete.

UMA SALA DE SERIAÇÕES

A exposição do Instituto Tomie Ohtake divide os quadros em dois espaços expositivos, o primeiro que entramos é uma enorme sala com algumas séries, que seriam homenagens construídas sempre numa cor base variando-se a saturação, e alguns estudos dos mais variados o possível. Nesse espaço expositivo o olhar é levado a ângulos adversos para cada uma das obras, uma vez que se encarando uma de frente sua visão periférica sempre incidirá sobre outra, o que torna a visita uma experiência muito sutil e gera uma pseudo-interferência impossivelmente negligenciada tanto pelo curador quanto a equipe de montagem, a proposta é exatamente essa: ao vermos uma obra daquela série, estaremos também pensando e absorvendo o espaço em seu entorno, o que facilitará o processo transcendente a retina de absorção e compreensão daquela pintura, não poucas vezes seu interesse é chamado ao redor e ao se olhar aquela mesma obra de ângulos diferentes, ou mesmo apenas de canto de olho, sua visão a respeito daquela montagem, dos tons muda.
O movimento dado aos quadrados uma vez colocados lado a lado também cria leva a algumas reflexões como o movimento de uma retina que se abre e fecha os quadrados também o farão e a percepção dessa mobilidade em objetos tão fixos e resolutos como quadrados mais uma vez indicam um possível sentido para a obra de Albers que continua sempre aberta, mesmo depois de se passar horas no espaço, vendo e revendo aquela movimentação estática, não apenas formal, mas também cromática divergida apenas pela saturação.

UMA SALA CHEIA

Se como dissemos na primeira sala encontramos uma sala cheia de seriações neste novo ambiente encontraremos o inverso, ou quase, não que não exista série alguma aqui, porém nesta sala imperaria a desordem ou algo similar, os tons que antes eram claros ou tendiam a tanto agora se misturam em negrumes brilhantes e tons amarronzados, juntamente de tons claros e verdes de variações extremas. Finalmente nos depararemos com uma homenagem que não detém apenas três quadrados ensimesmados, mas sim quatro. A sala parece girar junto dos quadros. Se na anterior víamos e apreciávamos até pouco a experiência de uma obra afetar a outra essa não o fazemos e tão pouco queremos, cada obra aqui é única e assim deve ser apreciada.
A instabilidade se constrói a quase um extremo, mas algo a acalma, a composição montada em cada quadro. Então fica claro, a estabilidade proposta no limite se constrói na sala como em cada quadro assim aquele quadrilátero, que é a sala, é apropriado pela obra de Josef Albers e reflete a obra. Essa pulsação é inevitável, se na sala anterior presta-se um clima mais sereno e estável, aqui estamos no território das duvidas, da separação e da reconstrução. Se na sala anterior encontrávamos estudos de cor em papéis debruçados sobre a mesa, nessa já não mais encontraremos estudo algum. Vemos apenas o resultado final do estudo e é maravilhoso: é o humano no aspecto mais próprio de si, mas ele está envolto por algo. Mesmo os tons mais escuros, mesmo o que deveria perturbar, não o faz graças ao simples fato da interiorização proposta pela obra. As cores se relacionam, por contraste ou por aproximação, mas sempre existe uma relação clara e direta entre elas. Aqui Albers quase não brinca mais com as tonalidades, ele está interessado em outro efeito, na própria relação entre as cores e novamente ele constrói isso junto da forma homenageada.


[1]. Wassily Kandinsky, (Moscou16 de dezembro de 1866 — Neuilly-sur-Seine13 de dezembro de 1944). Josef Albers e Wassily Kandinsky foram professores da BAUHAUS nos anos iniciais da década de 20 do século XX.
[2]. Piet Mondrian (Amersfoort, 07 de Março de 1872 - Nova Iorque1º de Fevereiro de 1944) pintor que certamente foi influenciado pela obra de J. Albers.

terça-feira, 3 de março de 2009

O desafio

Por que você se interessa por arte? Qual partícula em você o move em direção ao campo da especulação e não da certeza? Essas perguntas me perseguiram por meses e eu, sem resposta alguma, simplesmente segui em frente ignorando aquilo que me afligia.
Então numa fria noite de domingo, em novembro, fui ao teatro. Assistir a uma performance, ou ao menos foi ao que fui convidado a assistir. Eu já havia ouvido falar daquele espetáculo, e ele me havia sido apresentado, originalmente, como uma peça e não uma performance. E enquanto tomava um café comecei a pensar o que separava uma performance de uma peça, não sei se cheguei a alguma conclusão realmente esclarecedora, mas, se cheguei, foi essa: a performance é, em certa medida, uma diluição das linhas que separam as artes plásticas das outras artes, assim o teatro, a dança, o cinema, a narrativa e a expressão são incorporadas por um artista plástico para formar uma obra que, se vista por qualquer aspecto artístico (plástico, teatral, cinematográfico etc...) é multidisciplinar e, portanto pertencente tanto a um quanto a outro campo das artes, com objetivo final claro e único na especificidade do artista.
O show começa. Quatro mulheres espalhadas pelo espaço cênico se debruçam, caminham, deitam e cantam. O espetáculo é baseado em fotografias, então a fala não faz realmente sentido algum ali. Mas o som e o silêncio fazem. Eu quero gritar, mas não grito. A certa altura da ótima peça, eu me pergunto: "Por que você gosta de arte?". Silêncio. Eu penso. "Pela poética", respondo finalmente. Mas inquisidor que sou, não desisto tão fácil, me imagino falando com meus pais: "Mas o que é poética?" Eles perguntariam, querendo uma definição rígida que não posso dar, ainda. Então reformulo minha resposta anterior, por não ser capaz de responder a nova: "Pela poética, se é que sei o que é isso".
Eu vejo muita poesia em minha vida. Muita mesmo. Sempre em pequenas coisas. Uma rua vazia. Uma rua cheia. Um ponto no meu caminho diário que eu nunca tinha reparado e de repente ele se torna cheio e iluminado. Um vento gostoso acariciando o rosto meu rosto. O silêncio. Mas eu não sei o que é poética! Você sabe?