Quadrados flutuando em uma assimetria quase imperceptível dentro de outros quadrados de proporções variadas formando relações entre si a partir da cor seja pela proximidade cromática ou por seu distanciamento. Assim é a exposição COR E LUZ: HOMENAGEM AO QUADRADO de JOSEF ALBERS que se apresenta aos visitantes do Instituto Tomie Ohtake entre 16 de janeiro e 1º de março deste ano. Ao adentrar na exposição torna-se impossível pensar apenas no homenageado, o quadrado, dessa ultima série de pinturas feitas por Albers separado da construção e mesmo do discurso que se construirá não apenas pela forma, escolhida não ao acaso, mas também pela cor, sua variação ou sua sobreposição.
Não se pode negar que ali encontraremos um estudo de cores, um ótimo exemplo de construção do olhar muito alinhado ás teorias cromáticas postuladas por seu companheiro do corpo discente da BAUHAUS Wassily Kandinsky[1], porém Albers ao contrário deste não está preocupado em transpor para a tela uma paisagem puramente teórica, ou mesmo em construir paisagem alguma. Veremos na HOMENAGEM AO QUADRADO uma busca por um ponto essencial e, ao mesmo tempo, um deslocamento da apreensão do discurso artístico do cérebro para algo mais internalizado.
Preocupado sempre com a luz ideal o pintor propõe que vejamos essas obras à luz solar, o que nem sempre é possível por uma série de impossibilidades que perpassam desde a construção do espaço expositivo até a conservação das obras, ciente desses problemas o próprio Albers ao fazê-las as submetia a luminosidade incandescente e fria para compreender a relação da luminosidade com a cor apresentada. Por que fazê-lo? Pode-se pensar e a resposta virá exatamente das obras, o estudo de Josef Albers se constrói pela variação de cores prontas sobrepostas, ou melhor, entrepostas umas as outras as limitando a espaços quadrados. Essa variação levará o leitor a uma experimentação primaria cromática e secundária mais interiorizada, quase que metafísica para alguns.
A experiência cromática se constrói de maneira única uma vez que ela se dá pela relação entre a cor e a forma que a contém, Albers faz isso propositalmente para que, a partir do que ele nos apresenta possamos cada vez mais ver aquelas cores e estabelecer relações entre os quadrados. Notadamente Albers não cria cores ele aplica cores já existentes diretamente do tubo no suporte de madeira e espalha com uma faca ele fará isso diversas vezes passando mais vezes em determinados quadrados e menos em outros, criando texturas e alturas variáveis entre os quadrados mais internos e externos, não obstante ele não o fará seguindo uma lógica diferente da aleatoriedade e ainda sempre deixará vestígios do suporte utilizados a vista do leitor, o que gera um certo desconforto na primeira leitora.
É a partir desse desconforto que alcançamos essa parte mais interna da obra, é pensando em como foi feito aquilo que nota-se os contrastes sutis, as linhas quase perfeitas delimitando cada um dos quadrados, a presença de tons repetidos que antes pareciam muito diferentes entre si etc. e começa-se a criar mentalmente arestas que ligam aqueles quadrados formando cubos, ou pequenos cortes transversais inexistentes nas bordas de algumas obras limitando-as em molduras inexistentes ou pelo contrário nota-se a ausência dessas molduras “imaginária” e percebe-se a infinitude do que ali está exposto, o eterno crescimento daquele quadrado de madeira com quadrados de uma mesma cor pintados em si. Enfim Josef Albers constrói um sentido a partir das cores e da forma simples por ele escolhida para sua obra. Certamente um leitor mais ávido por relacionar a obra pode pensará imediatamente em Piet Mondrian[2] porém enquanto Mondrian procurava relacionar ou refletir um sentido e uma lógica universal a partir das cores primárias, Albers refletirá tanto uma metafísica mais ampla quanto em um nível mais individual: O brilho das cores, os pequeninos pontilhados que remetem ao suporte, a separação das camadas e a própria escolha do objeto retratado, uma forma tão simples, tudo isso deve ser lido e interiorizado pelo visitante para compreender-se um sentido maior ao qual a obra de Josef Albers remete.
UMA SALA DE SERIAÇÕES
A exposição do Instituto Tomie Ohtake divide os quadros em dois espaços expositivos, o primeiro que entramos é uma enorme sala com algumas séries, que seriam homenagens construídas sempre numa cor base variando-se a saturação, e alguns estudos dos mais variados o possível. Nesse espaço expositivo o olhar é levado a ângulos adversos para cada uma das obras, uma vez que se encarando uma de frente sua visão periférica sempre incidirá sobre outra, o que torna a visita uma experiência muito sutil e gera uma pseudo-interferência impossivelmente negligenciada tanto pelo curador quanto a equipe de montagem, a proposta é exatamente essa: ao vermos uma obra daquela série, estaremos também pensando e absorvendo o espaço em seu entorno, o que facilitará o processo transcendente a retina de absorção e compreensão daquela pintura, não poucas vezes seu interesse é chamado ao redor e ao se olhar aquela mesma obra de ângulos diferentes, ou mesmo apenas de canto de olho, sua visão a respeito daquela montagem, dos tons muda.
O movimento dado aos quadrados uma vez colocados lado a lado também cria leva a algumas reflexões como o movimento de uma retina que se abre e fecha os quadrados também o farão e a percepção dessa mobilidade em objetos tão fixos e resolutos como quadrados mais uma vez indicam um possível sentido para a obra de Albers que continua sempre aberta, mesmo depois de se passar horas no espaço, vendo e revendo aquela movimentação estática, não apenas formal, mas também cromática divergida apenas pela saturação.
UMA SALA CHEIA
Se como dissemos na primeira sala encontramos uma sala cheia de seriações neste novo ambiente encontraremos o inverso, ou quase, não que não exista série alguma aqui, porém nesta sala imperaria a desordem ou algo similar, os tons que antes eram claros ou tendiam a tanto agora se misturam em negrumes brilhantes e tons amarronzados, juntamente de tons claros e verdes de variações extremas. Finalmente nos depararemos com uma homenagem que não detém apenas três quadrados ensimesmados, mas sim quatro. A sala parece girar junto dos quadros. Se na anterior víamos e apreciávamos até pouco a experiência de uma obra afetar a outra essa não o fazemos e tão pouco queremos, cada obra aqui é única e assim deve ser apreciada.
A instabilidade se constrói a quase um extremo, mas algo a acalma, a composição montada em cada quadro. Então fica claro, a estabilidade proposta no limite se constrói na sala como em cada quadro assim aquele quadrilátero, que é a sala, é apropriado pela obra de Josef Albers e reflete a obra. Essa pulsação é inevitável, se na sala anterior presta-se um clima mais sereno e estável, aqui estamos no território das duvidas, da separação e da reconstrução. Se na sala anterior encontrávamos estudos de cor em papéis debruçados sobre a mesa, nessa já não mais encontraremos estudo algum. Vemos apenas o resultado final do estudo e é maravilhoso: é o humano no aspecto mais próprio de si, mas ele está envolto por algo. Mesmo os tons mais escuros, mesmo o que deveria perturbar, não o faz graças ao simples fato da interiorização proposta pela obra. As cores se relacionam, por contraste ou por aproximação, mas sempre existe uma relação clara e direta entre elas. Aqui Albers quase não brinca mais com as tonalidades, ele está interessado em outro efeito, na própria relação entre as cores e novamente ele constrói isso junto da forma homenageada.

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