Há algum tempo venho ponderando a respeito do circuito de artes contemporâneo. Sobre como o grande público se aproxima e se apropria desse meio tão especializado. Como essa mesma população lida com tal 'exclusão'. Porém, e quanto mais ponderava a respeito mais eu me deparava com essa questão, era necessário delimitar o que é arte, ou melhor, o que se pode chamar ou não de “obra de arte”. Isso porque a cada momento que eu me propunha pensar essa relação entre o público e a 'obra de arte' e sua mediação por qualquer que seja a instituição, o que, cada vez mais, me parecia problemático era: O que torna essa obra uma “obra de arte”? Seria sua mera presença em uma instituição cultural? Seria o simples fato de ele ter sido feito/ pensado/ projetado por um “artista”? Onde se delimita essa tênue linha? Essa problematização decorria de uma demanda daquele público geral por eu notada: os visitantes não especializados tinham um problema de identificação com aquela obra, como se elas não lhes dissessem nada [sobre suas vidas, sua sociedade etc.] ainda que as aceitassem como tal apenas pela sua presença naquele espaço.
Assim preocupei-me em definir primeiramente o que delimitaria uma obra de arte como tal e a seguir o que a separaria de uma ocasional intervenção qualquer no espaço. Tentei me afastar, dar um passo atrás, para depois prosseguir com minhas outras ponderações. Responder essa pergunta aparentemente tão simples mostrou-se uma tarefa exaustiva uma vez que via de regra aceitamos o objeto artístico como tal simplesmente por ele nos ser assim apresentado. Após algumas discussões com professores e amigos por meses a fio e após intensa tentativa intrusa de inserção nesse meio especializado, penso, hoje, ter alcançado um ponto bastante interessante. Por fim, conclui: O objeto artístico é uma reflexão [que na arte contemporânea se apóia em qualquer suporte] social, econômica e, mesmo, pessoal[1] que se dá pela sensação [e reflexão] estética, ou seja, uma reflexão sobre esses valores, vigentes ou passados, se dá através da visualidade que fará, por livre associação ou não, relações com conceitos estéticos estabelecidos e pensados como tais pelo menos desde o século XIX.
Como citamos previamente a arte contemporânea tem esse viés de se apropriar de qualquer suporte para propor sua reflexão, assim não mais faz sentido falarmos de obra de arte mas sim de objetos artísticos, uma vez que a obra de arte, como seu próprio produtor, perde sua aura indelével de objeto inspirado ou inspirador subtraído de um gênio além de seu tempo para se tornar o “comum e rotineiro”[2].
Ponderado isso podemos agora mais facilmente entender um processo vital e recorrente na visitação a instituições culturais hoje e o distanciamento do público não especializado das discussões propostas: [via de regra] esse público visita uma exposição pretendendo deparar-se com o ideário moderno de obra de arte, o qual não exclui o que acabamos de pontuar nos parágrafos anteriores não obstante ainda se imbuídos do ideal do belo que precede ainda o ideal moderno. Mesmo que esse ‘belo’ seja diferente daquele anterior, em outras palavras, o belo nos movimentos modernistas é importante mesmo sendo esse belo criado a partir de diferentes referenciais do ‘renascentista’, por exemplo.
Entenda-se os artistas e o movimento artístico hoje não se considera apartado da sociedade em instancia nenhuma, porém essa mesma sociedade os considera como tal por ainda sustentarem um ideário romântico no qual, querendo ou não, os modernistas do século XIX se inseriram. Nesse confronto o público não especializado se frustra e se entende segregado de quaisquer discussões propostas, não que não existam ali discussões próprias e internas aos movimentos artísticos e, mesmo, ao suporte escolhido, certamente elas existirão, não obstante não é esse o elemento que o artista pretende que aproxime público de reflexão e sim o convívio social em seu amplo aspecto, significando aqui a aproximação de diferentes públicos com determinada obra a partir de elementos tangíveis e identificativos comuns a todos [público especializado e não-especializado] por pertencerem ao cotidiano citadino/ social/ contemporâneo.
[1]. Dado que somos indivíduos sociais ou, no mínimo, socializáveis o foro pessoal em muitas medidas reflete sociedade, economia, preceitos filosóficos, entre outros elementos compositores do individuo que reflete aquela obra.
[2]. Baudelaire fala-nos da perda da aura do artista e, mesmo sem saber, prevê a “queda”, a perda da aureola da obra também em seu [famoso] texto: “Perda da aureola”.
Perda da aureola In: BAUDELAIRE, C. Pequenos poemas em prosa. Editora da UFSC: Florianópolis, 1988.

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